Há muito, muito, muito tempo atrás, quando eu era pequeno, tinha para aí uns 22 anos, certa noite tive problemas em dormir e lembrei-me de pedir ao meu avô para me contar uma história das dele. Podia ser que fosse uma seca e eu me deixasse dormir…
- Avô, conte-me uma história!
- Oh tudo bem, vai lá buscar o teu livro de histórias.
- Não, não, uma dessas não! Uma história verdadeira.
- Chiça, és mesmo chato! Uma história verdadeira?
- Sim, conte-me quando você era um miúdo!
- Bem… então terei que voltar muito atrás no tempo... Tinha eu 42 anos quando vim para esta cidade…
- Mas eu pedi uma história de quando você era miúdo!
-PSHTTT Cala-te! Eu tinha 42 mas por dentro era uma criança de 12 anos… Continuando...
Quando eu vim para cá era Inverno e a cidade estava dividida em três zonas. Cada uma era controlada por uma figura, um mestre na nobre arte de… cozinhar bifanas! Não te rias! Raio do gaiato! Levas uma galheta… Isto é uma história séria!
-Mas oh avô, a nossa cidade estava dividida em três só porque havia três pessoas que faziam bifanas de maneiras diferentes?
-Sim, filho. Tu não sabes como uma simples bifana pode controlar multidões e levar a que os homens batalhem pelo simples motivo de a sua bifana ser maior ou mais gostosa que a do vizinho! Mas não te rias!!! Já te disse que isto é uma história séria!
-Desculpe, avô! Continue.
-Bem, como eu estava a dizer, havia uma zona que era controlada por um califa iraquiano e cujas bifanas eram as mais gostosas. Podias comer três bifanas de seguida, maionese, ketchup e mostarda, mais uma travessa de batatas fritas e a bela da imperial, que nunca te sabiam a pouco. Eram, de facto, as bifanas com a reputação de serem as melhores da nossa cidade e por isso tinha muita gente. Depois havia uma zona controlada por um esquimó… De que te estás a rir, rapaz?
-Oh avô, um esquimó?
-Sim, um esquimó. Qual é o problema? Deu à costa no nosso rio em cima de um iceberg. Deve ter vindo à deriva quando veio lá do país da neve e naufragou! Ora, o estabelecimento dele era conhecido por ter as bifanas maiores da nossa cidade. Comias duas e ficavas alimentado para o resto do dia! Ele ganhava mais clientela graças ao facto de ter o estabelecimento mesmo ao lado de um entreposto rodoviário. Sempre que chegava uma excursão de velhotes, tinha casa cheia. O que acontecia todos os fins-de-semana! Depois havia uma outra zona da cidade que era controlada por um mestre brasileiro que certo dia se lembrou de vir fazer um pic-nic para Portugal. As bifanas que ele fazia eram medianas. Não eram más mas não se pode dizer que fossem as melhores. Ele ganhava a sua clientela graças ao facto de ter o seu estabelecimento mesmo no meio da nossa avenida principal. Claro que a maioria das pessoas que por cá passavam, viam-no primeiro que aos outros e iam lá.
Certo dia, enquanto eu tratava do meu quintal ao lado da floresta encantada, ouvi o som de pratos e talheres e de muitas pessoas a falar. Tive uma vontade enorme de ir espreitar e descobrir de onde vinham os sons. Caminhei, caminhei, caminhei pela floresta e quando as árvores se abriram, eu estava no cimo de uma colina. Diante de mim, uma grande planície. Sobre ela, os três Exércitos da Bifana!! Não te rias!!! Foi assim que ficaram conhecidos… Estavam parados… Esperando! Pensei para mim: “De quem ou do quê, estarão eles à espera?”
De repente, uma rajada de vento surgiu do oeste. Apareceu um cozinheiro solitário, que usava um turbante e vestes esvoaçando ao vento, empunhando uma espada de aço, uma cimitarra. E depois, do norte apareceu outro que usava um casaco grosso de pele de foca e um arco e flechas. Do este surgiu um terceiro, que usava uma t-shirt da selecção brasileira e uma pandeireta e vinha a dançar o samba. E finalmente do sul, apareceu uma senhora gorda que trazia baguetes mas, como ninguém quis, ela foi-se embora.
Reuniram-se os três no meio, entre os seus soldados imortais da bifana. O olhar nos seus olhos, dizia a todos os que observavam, que eles terminariam este dia, somente vitoriosos ou esfomeados.
E houve um grande silêncio… O meu coração começou a bater…
Nuvens de tempestade encheram o céu com escuridão e começou a chover…
Os quatros ventos sopraram com tanta raiva que eu me agarrei firmemente a uma árvore.
De repente, os três Cozinheiros erguerem as suas bifanas no ar. Sem aviso, bradaram os seus gritos de guerra. Correram em direcção aos respectivos exércitos e deram início à batalha. Os exércitos da bifana encontraram-se com um poderoso ribombar. Eu até senti o chão tremer. Os soldados trocavam chapadas com bifes, obrigavam o inimigo a engolir a sua bifana predilecta. A terra bebeu muita maionese, ketchup e mostarda naquele dia. Cada cozinheiro carregava em si um furacão de molho de alho! Muito bom…
Quando o fumo clareou, havia milhares de pessoas estendidas de barriga cheia. Havia muita mostarda e ketchup secos. Os corpos deformados e espalhados por todo o campo de batalha pareciam folhas que tinham sido sopradas pelo vento. De repente, eu vi os três cozinheiros caminharem juntos para o alto da colina, enquanto lá em baixo, os soldados da bifana se reuniam. Todos aqueles que se tinham conseguido levantar... E os três recitaram a oração da bifana:
“Deuses da Batata Frita, eu vos chamo
Minha bifana está ao meu lado
Irei comê-la com um poderoso mastigar
Eu busco uma vida de honra, livre de toda a fome
Cubram-me de molho se algum dia falhar
Ketchup, maionese ou mostarda
Salve! Salve! Salve!”
E enquanto eu continuava observando, os três cozinheiros redigiram ali, no alto da colina, a trégua que até hoje reina na nossa cidade. Ouviram-se então os exércitos da bifana ,saudando-os infinitamente e suas vozes de alegria foram carregadas para bem longe, por toda a terra… até à cidade vizinha onde há a mania que também sabem fazer bifanas! Não perdem pela demora…
E pronto, acabou-se. Gostaste da história?
-Sim, foi um espectáculo.
-Ah que bom, fico contente. Agora é hora de ires dormir.
-Avô… Apetecia-me uma bifana do Sr. Califa!
-Está bem, amanhã o avô paga-te uma bifana para teres dinheiro para poderes comprar aquele CD de Iron Maiden que tanto queres!
Agradecimentos:
-aos Manowar, pela inspiração.
-à filha mais velha pela ideia
-ao sr. Califa pelas bifanas!!!
Sem comentários:
Enviar um comentário